A Máquina de Extrair Dinheiro: O Efeito Nocivo das Bets e Seus Influenciadores
Por que R$ 37 bilhões saem do bolso dos brasileiros todo ano — e quem lucra com isso
Existe um número que precisa ser repetido em voz alta até que ele faça sentido: R$ 37 bilhões. É quanto as casas de apostas online — as chamadas bets — faturaram em 2025 no Brasil, considerando apenas as plataformas que recolhem tributos. [1] Trinta e sete bilhões de reais. Para ter uma referência: o orçamento do Ministério da Saúde em 2024 foi de R$ 218 bilhões. Em menos de dois anos, as bets extraíram o equivalente a 17% de tudo que o Brasil gasta com saúde pública — e esse dinheiro não saiu do ar. Saiu das contas de aproximadamente 39,5 milhões de brasileiros que pagaram por apostas online nos últimos doze meses — mais de um quinto da população adulta do país. [1]
Esse é o cenário. E a pergunta que o Brasil ainda não respondeu direito é: quem é responsável por isso?
Como chegamos até aqui
A história começa em 2018, no governo Michel Temer, quando a Lei 13.756 abriu caminho para as apostas esportivas de quota fixa no país. A ideia era simples: regulamentar um mercado que já existia na prática — quem queria apostar, apostava em plataformas estrangeiras — e trazer para dentro da lei, com tributação e fiscalização.
O problema é que regulamentar levou tempo. Muita coisa do mercado já estava tomando forma quando a lei chegou, e o vácuo regulatório dos anos seguintes foi o campo fértil perfeito para o crescimento desordenado. A Lei 14.790, conhecida como "Lei das Bets", só foi sancionada pelo presidente Lula em dezembro de 2023 — cinco anos depois da abertura inicial. O mercado formal só começou a operar com licenças em janeiro de 2025. [2]
Nesse intervalo, aconteceu uma explosão. Não foi um crescimento gradual. Foi uma detonação silenciosa dentro das finanças das famílias brasileiras.
O estrago: maior que os juros
Em março de 2026, o Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (IBEVAR), em parceria com a FIA Business School, publicou um estudo que deveria ter chamado muito mais atenção do que chamou. A pesquisa analisou 14 anos de dados — de 2011 a 2025 — cruzando informações do Banco Central, do IPEA e de redes sociais para entender o que está movendo o endividamento das famílias brasileiras. [1]
Na prática, o peso das bets no endividamento familiar é quase o dobro da soma de juros e crédito combinados. [2]
E o custo não para no bolso. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em parceria com a Frente Parlamentar da Saúde Mental, publicou um dossiê estimando que os danos à saúde associados ao jogo problemático custam ao menos R$ 38,8 bilhões por ano à sociedade — levando em conta perda de emprego, de moradia, impacto psicológico, pressão sobre o SUS e, em casos extremos, aprisionamento. [2][3]
O setor lucrou R$ 17,4 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025. [3] O custo social que essa atividade gera equivale a mais do que o dobro disso — e quem paga é o contribuinte.
Quem aposta? Spoiler: não é quem você imagina
Existe uma narrativa confortável sobre as bets: a de que é um entretenimento adulto, uma escolha consciente de quem tem informação e dinheiro disponível para jogar. A realidade dos dados não confirma essa narrativa.
Uma pesquisa do Instituto DataSenado revelou que, entre os apostadores, 52% recebem até dois salários-mínimos por mês. [4] São pessoas que estão usando uma parte relevante de uma renda já pequena para alimentar uma plataforma projetada para que a casa sempre ganhe.
O Banco Central trouxe um dado ainda mais impactante: em agosto de 2024, cerca de R$ 3 bilhões foram transferidos para casas de apostas por beneficiários do Bolsa Família. A média estimada de gasto nesse grupo é de R$ 100 por mês — o que representa uma fatia considerável de um benefício que existe exatamente para garantir o básico à família. [5]
Um levantamento sobre o comportamento dos apostadores revelou que 64% utilizam sua renda principal para fazer apostas, e 63% afirmam que já tiveram parte de sua renda comprometida com elas. Mais revelador ainda: 19% reduziram compras em supermercado, 14% cortaram gastos com produtos de higiene e beleza, e 11% diminuíram gastos com saúde e medicamentos para continuar apostando. [6]
A psicologia do vício que ninguém quer nomear
O psicólogo Luiz Fernando Miranda é direto: "A atuação do vício em jogos não está muito diferente dos outros vícios na parte neuropsicológica. É uma atuação do cérebro que afeta sintomas neurais relacionados ao prazer e à recompensa." [7]
As plataformas de apostas são, em grande parte, produtos de engenharia comportamental sofisticada. Cada interface, cada notificação, cada animação de "quase ganhou" foi projetada para manter o usuário engajado o máximo de tempo possível. A incerteza do resultado não é uma falha do produto — é a feature central. O sistema de recompensa do cérebro humano responde intensamente ao imprevisível.
O Instituto Locomotiva, em pesquisa que apelidou de "A Epidemia das BETs", mostrou que quase metade dos apostadores iniciou em 2024 — ou seja, são novatos. E 53% responderam que o objetivo principal é ganhar dinheiro. Não entretenimento, não emoção. Dinheiro. Essa é a promessa que venderam, e é ela que alimenta o ciclo. [7]
Quase 45% já tiveram prejuízos financeiros por conta das apostas. E continuam.
A cláusula mais perversa que você nunca ouviu falar
Em janeiro de 2025, a revista Piauí publicou uma reportagem que deveria ter sacudido o debate público com mais força. Ela revelou os valores e as condições dos contratos entre grandes influenciadores digitais e plataformas de apostas — e junto com os números vieram detalhes que dão a dimensão real do que está acontecendo.
Virginia Fonseca — com mais de 52 milhões de seguidores no Instagram — foi o caso mais emblemático. Segundo a Piauí, seu contrato original, assinado em dezembro de 2022 com a plataforma Esportes da Sorte, era descrito como "cachê da desgraça alheia": ela receberia 30% do valor perdido pelos usuários que acessassem o site pelo seu link, além de adiantamento de R$ 50 milhões. Após a CPI, ela rompeu esse contrato pagando multa de R$ 30 milhões — e assinou um novo, com a Blaze, avaliado em R$ 29 milhões anuais. Neymar é o rosto principal da mesma Blaze, com contrato estimado em R$ 100 milhões por ano. Cauã Reymond assinou com a BateuBet por cerca de R$ 22 milhões anuais. Gkay recebia cerca de R$ 1,4 milhão por mês com a Esportes da Sorte. [8][9]
Esses são apenas os nomes que vieram a público. O mercado de influência para bets no Brasil é gigantesco e muito pouco transparente.
Mas o valor em si não é a parte mais perturbadora da história. O que a CPI das Bets, instalada no Senado em 12 de novembro de 2024, investigou foi a existência da chamada "cláusula da desgraça" — uma estrutura contratual descrita pela Piauí em que o influenciador recebe comissão com base nas perdas dos apostadores que acessam a plataforma pelo seu link. Quanto mais o seguidor perde, mais o influenciador embolsa. [10]
Virginia Fonseca negou, em depoimento à CPI em maio de 2025, ter recebido comissões baseadas em perdas de usuários — disse que o bônus era condicionado ao dobro do lucro da plataforma, meta que afirmou nunca ter sido atingida. O relatório final da CPI, que pedia o indiciamento de 16 pessoas incluindo Virginia, foi rejeitado por 4 votos a 3 em junho de 2025 — a primeira vez em uma década que uma CPI do Senado encerrou sem relatório aprovado. A investigação, porém, expôs a arquitetura do setor de maneira que o debate público não poderá mais ignorar.
Virginia Fonseca e Rico Melquíades foram ouvidos como testemunhas pela CPI. A "cláusula da desgraça" e o uso de "contas demonstração" para simular ganhos irreais foram dois dos pontos centrais das oitivas. [10]
A conta demo: o truque de ilusionismo mais caro do Brasil
A CPI das Bets trouxe à tona um esquema que já era suspeito, mas que ganhou nome e rosto a partir do depoimento de autoridades policiais.
O delegado responsável por investigações do setor explicou o mecanismo com precisão cirúrgica: as casas de apostas ilegais forneciam aos influenciadores duas contas. Uma conta real, que funcionava como qualquer outra. E uma conta demonstração — programada para ganhar sempre, com resultados manipulados. [11]
O influenciador então gravava a tela usando a conta demo, mostrava ganhos absurdos e irreais para seus seguidores, e divulgava o link de afiliado da plataforma. Quem clicava e se cadastrava caía na conta real — onde a casa sempre ganha. O influenciador lucrava por cada pessoa captada. [11]
Em dezembro de 2025, a Operação 777 em Mato Grosso revelou que um grupo de influenciadores havia faturado R$ 12,8 milhões em apenas seis meses com esse esquema. Os veículos de luxo apreendidos nos condomínios dos investigados foram a imagem simbólica de um problema sistêmico. [12]
O "efeito hidra" da regulação
O governo federal não ficou parado. Desde que o mercado formal passou a operar com licenças em janeiro de 2025, a Anatel e a Receita Federal intensificaram a fiscalização. Entre outubro de 2024 e junho de 2025, mais de 15,4 mil páginas de plataformas irregulares foram bloqueadas. [5]
Mas o mercado ilegal aprendeu a sobreviver. Pesquisadores chamam o fenômeno de "efeito hidra": cada site derrubado ressurge com um novo domínio. Os aplicativos espelhados circulam pelo WhatsApp. Os influenciadores continuam divulgando marcas não licenciadas — às vezes sem saber, às vezes sabendo perfeitamente. [5]
O desafio regulatório não é apenas técnico. É comportamental, cultural e econômico. Enquanto houver demanda — e enquanto influenciadores lucrarem mais com a divulgação do que arriscarem com a responsabilização — o mercado ilegal encontra caminho.
A virada legislativa: o Senado se move
Em 28 de maio de 2025, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei 2.985/2023, que representa a mudança mais significativa no marco regulatório da publicidade de bets desde que o mercado foi criado. [13]
O texto aprovado proíbe a participação de influenciadores digitais, atletas, artistas, comunicadores e autoridades em campanhas publicitárias de apostas — em qualquer mídia. Há exceções apenas para ex-atletas com carreira encerrada há mais de cinco anos. Ficam também proibidas a exibição de odds em tempo real durante transmissões esportivas, e toda publicidade passa a ser obrigada a exibir em destaque a mensagem: "Apostas causam dependência e prejuízos a você e à sua família". [14]
A medida ainda precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados para entrar em vigor. E já gerou reação do setor esportivo, que teme a perda de patrocínios. [13]
O relator do projeto, senador Portinho, foi direto na justificativa: "Após a lei ter regulamentado o mercado de apostas esportivas, o setor não foi capaz de se autorregulamentar com relação à publicidade." [13]
Autorregulação foi tentada. Não funcionou.
Loteria e bet: a diferença que importa
Existe uma confusão deliberada — ou no mínimo conveniente — que trata bets e loterias como se fossem a mesma coisa. Não são.
Mega-Sena, Lotofácil, Quina e todas as modalidades da Caixa Econômica Federal têm sua receita destinada por lei a causas públicas: saúde, educação, seguridade social, esporte e cultura. Cada bilhete comprado alimenta um fundo que financia o País.
As bets, mesmo as licenciadas, funcionam com uma lógica fundamentalmente diferente: a receita vai para empresas privadas, frequentemente com sede no exterior, que pagam tributos sobre o lucro — mas cujo modelo não contempla nenhum retorno social estruturado. O lucro é privado. O custo social é público.
Além disso, as loterias têm regras claras de publicidade, limites de aposta e funcionamento controlado. Não há cláusula de desgraça, conta demo nem influenciador recebendo comissão pelas perdas de quem jogou.
O que está em jogo
O Brasil está no meio de um experimento social não planejado, de escala gigantesca e consequências ainda não totalmente mensuradas.
Um mercado que inexistia em formato digital há seis anos movimenta hoje R$ 37 bilhões por ano, endivida famílias mais do que os juros, custa quase R$ 39 bilhões anuais em danos sociais e de saúde, e usou sistematicamente figuras públicas para criar a ilusão de que qualquer um pode ganhar.
A maioria não ganha. A matemática não permite. A casa sempre tem vantagem estrutural — isso não é opinião, é o fundamento do modelo de negócio.
O que os influenciadores venderam — muitos deles com contratos que os remuneravam pelas perdas dos seguidores — não foi entretenimento. Foi a narrativa de que o atalho financeiro existe. E que ele está a um clique de distância.
Enquanto a regulação tenta se firmar, o dano já está instalado nas finanças e na saúde mental de milhões de brasileiros. O custo dessa conta não aparece no balanço de nenhuma plataforma. Aparece nos prontos-socorros, nos endividamentos, nas famílias que cortaram o feijão para não cortar a aposta.
Diferente das bets, as loterias da Caixa destinam parte da arrecadação para saúde, educação e esporte. Acompanhe resultados em tempo real, estatísticas históricas e ferramentas para jogar com mais informação. Ver resultados →
- 1.O Tempo — Bets impulsionam endividamento mais do que juros e crédito (março/2026)
- 2.Correio Braziliense — Estudo mostra que bets são as maiores causadoras de dívidas dos brasileiros (março/2026)
- 3.BNews — Danos à saúde associados a apostas podem gerar custo social de R$ 30,6 bi ao ano (dezembro/2025)
- 4.Senado Federal — Senado aprova restrição à publicidade de bets (maio/2025)
- 5.Contadores CNT — O avanço das apostas esportivas no Brasil e o impacto do gasto médio mensal (dezembro/2025)
- 6.Trend Override — CTRL + ALT + BET
- 7.Jornal O Casarão / UFF — A Regulação das BETs no Brasil e o impacto na economia das famílias brasileiras (janeiro/2025)
- 8.O São Gonçalo — Virginia, Neymar, Carlinhos e outros: Descubra quanto ganham para promover casas de apostas (janeiro/2025)
- 9.Meio & Mensagem — Influenciadores e bets: o que sustenta essa delicada relação? (maio/2025)
- 10.ConJur — Crime ou falácia no caso das bets? (maio/2025)
- 11.Senado Federal — CPI: delegado mostra que bets ilegais e influenciadores mentem para lucrar mais (abril/2025)
- 12.PCMT / PJC-MT — Investigação sobre jogos de azar online aponta que influenciadores faturaram R$ 12,8 milhões em seis meses (dezembro/2025)
- 13.Senado Federal — Senado aprova restrição à publicidade de bets (maio/2025)
- 14.FAS Advogados — Senado aprova PL que restringe publicidade de apostas por influenciadores digitais e atletas (junho/2025)